"Tomemos um pensamento qualquer... qualquer coisa, tanto faz. Estou
cansada de ficar aqui sentada em frente à sala das enfermeiras: um
pensamento perfeitamente racional. Eis o que velocidade fez com ele.
Primeiro, você analisa a frase: Estou cansada... pois bem, será
cansaço realmente? Isso é o mesmo que sonolência? Você precisa conferir
todas as partes do corpo para ver se está com sono e, enquanto faz isso,
é bombardeada por imagens sobre sonolência, mais ou menos assim: cabeça
caindo sobre o travesseiro, cabeça batendo no travesseiro, João Pestana
e a Bela Adormecida esfregando os olhos sonolentos, um monstro marinho.
Ih, um monstro marinho. Com sorte, você se esquiva do monstro marinho e
se atém à sonolência. De volta ao travesseiro, a lembrança de ter tido
cachumba aso cinco anos, a sensação da papada inchada sobre os
travesseiros, a dor ao salivar...Pare. Vamos voltar à sonolência.
Mas a ideia da salivação é atraente demais e você parte em excursão pelo
interior de sua boca. Já esteve ali antes e não achou bom. O problema é
a língua : é só pensar na língua que ela se torna um estorvo. Por que
será que é tão grande? Porque é áspera nas bordas? Será uma deficiência
de vitamina? Seria possível arrancar a língua? Sem ela, a boca não
ficaria mais confortável? Haveria mais um espaço no seu interior. A sua
língua, agora, cada célula da sua língua,é imensa. Ela é um imenso
objeto estranho dentro da sua boca.
Tentando diminuir o tamanho da sua língua, você se concentra nos seus
componentes: a ponta é lisa; a parte de trás inchada; os lados
são ásperos, como foi observado antes (deficiência de vitamínica); a
raiz... um problema. A língua tem raízes. Você já as viu e, enfiando o
dedo na boca, é capaz de senti-las, mas não consegue senti-las com a
própria língua. É um paradoxo.
Paradoxo. A tartaruga e a lebre. Aquiles e... o que mesmo? A tartaruga? O tendão? A língua?
De volta à língua. Enquanto você pensava em outra coisa, ela parece que
diminuiu de tamanho. Mas pensar nela faz com que torne a crescer. Por
que será que suas bordas são ásperas? Será falta de vitaminas? Você já
pensou isso antes, mas agora o pensamento grudou na sua língua. Aderiu à
existência de sua língua.
Tudo isso levou menos de um minuto e ainda falta destrinchar o resto da
frase, quando na verdade, você só queria decidir se ficava ou não de pé.
A viscosidade e a velocidade, embora opostas, podem parecer iguais. A
viscosidade gera inércia da falta de inclinação; a velocidade gera
inércia da fascinação. Quem observa não consegue saber se uma pessoa
está calada e quieta porque sua vida interior estacionou ou porque a sua
vida interior é de uma atividade paralisante."
Susanna Kaysen - trecho do livro "Garota, interrompida"
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