domingo, 7 de dezembro de 2014

O que são Transtornos Alimentares?

Há muito que não escrevo sobre esse tema  e não sei direito por onde começar.
O quanto o mundo não está preparado para lidar com transtornos alimentares e o quanto essa sociedade do consumo, tão hostil e tão competitiva só incentiva um comportamento conflituoso na relação homem-alimento.
 Se exite algo que faremos até o fim de nossas vidas é comer. Respirar e comer, as duas coisas que possibilitam nosso coração bater. Racionalmente isso deveria ser uma tarefa fácil, automática e prazerosa para nós assim como o é para todos os outros animais. Racionalmente... mas o ser humano é muito mais complexo.
Os transtornos alimentares infelizmente tem se multiplicado, tem engolido cada vez mais vítimas, pessoas de todas as cores, gêneros e nacionalidades. Os números não mentem e estamos indo de mal a pior.
 A causa dos transtornos alimentares ainda não pode ser dita com certeza, existem pesquisas e pesquisas que apontam ser uma combinação de fatores biológicos, psíquicos e externos, mas ainda é uma doença cheia de mistérios. Um coisa é certa: É uma doença.
 Não é um modo de vida, não é uma fase, não é frescura.

De acordo com estimativas do Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH, na sigla em inglês) 70 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de algum tipo de transtorno alimentar. Em estudos de longo prazo o índice de mortes provocado por esses transtornos é alto: entre 18% e 20%"

 O que poucas pessoas conseguem imaginar são os sentimentos e pensamentos que uma pessoas que possui um TA tem. Qual é esse bloqueio tão "mágico" que não permite que alguém coma um doce e sinta prazer, ou que a impeça de sentar-se a mesa sem fazer contas, que a leve ao banheiro após uma refeição (por mais que seja um copo de suco) e a faça machucar a si mesma para colocar aquilo para fora, que faça alguém comer compulsivamente qualquer coisa...? O sentimento de olhar-se no espelho e não sentir nada além de nojo, vergonha e ódio...? Como deve ser pensar nisso 25 horas por dia? Qual o tamanho desse desespero que faz um pessoa preferir a dor, a degradação do próprio corpo, a tortura da fome, ou a dor de comer TUDO?

Não existe nenhum meio ou palavras para descrever exatamente como são esses sentimentos. Não existem páginas suficientes para exprimir as noites reviradas na cama, as horas desperdiçadas no banheiro...

É tudo tão intenso.
A doença em si, a obesidade,a anorexia, bulimia, vigorexia e os tantos outros transtornos alimentares não são a perda ou ganho de peso. Não são nem a relação com a comida. Isso são sintomas. A doença é mais profunda. E está alojada em pensamentos destrutivos... mas porque esses pensamentos estão lá? Da onde veio essa distorção da própria imagem?
 Essa é a doença: O porque a relação com seu próprio corpo, vida e alimentação é assim violenta.

Infelizmente, ao contrário de uma gripe ou um pé quebrado, não existe um remédio que a faça passar. Remédios ajudam, principalmente porque na maioria dos casos essas doenças vem acompanhadas de outras como a depressão, ataques do pânico, ansiedade, bipolaridade ou outras. A medicação é uma importante ajuda mas sozinha não possui força nenhuma.
E aqui se consiste um passo difícil, dolorido, e que exige muita energia, disponibilidade, amor e apoio: O tratamento.
A duração? Indeterminado.
A garantia de cura? Não tem.



A visão arcaica, mas ainda presente em nossa sociedade, que psiquiatras e psicólogos são médicos "de gente louca" só dificultam o processo. O tratamento deve ser multidisciplinar (psicólogo,psiquiatra e nutricionista) e precisa de envolvimento familiar do paciente.

O que posso dizer com certeza,  que me lembro perfeitamente, e que tenho certeza de ser assim em TODOS os casos, é o cansaço.
A exaustão de abrir mão de todos os seus hábitos e pensamentos (doentios, mas que eram "seus" pensamentos - as aspas são pelo motivo de na verdade serem os 'pensamentos da doença'-), de convencer-se de que tudo aquilo que você acredita é falso, reaprender a se olhar, a pensar, a comer, a se relacionar com outros... é como voltar a ser um bebê. Não poder ficar sozinho, não poder tomar algumas decisões... ser cuidado.

Recaídas, crises de angústia/ansiedade, brigas constantes com a família/amigos, mudanças corporais, hormonais... Enquanto tudo isso acontece, o mundo não pára. A escola continua, o trabalho continua, cobranças vindas de outros lado, muitas vezes a falta de compreensão (MUITAS vezes). O mundo torna-se ameaçador. As revistas, programas de TV, redes sociais que mostram cada dia mais dietas, barrigas "secas para o verão", propagandas, modelos, a adoração pela magreza está por todos os lados. E a grande questão é: Como se curar de uma doença, se o mundo adoeceu? Muitas vezes, clínicas são a solução para momentos crucias e difíceis no tratamento, sendo lugares mais fáceis de se viver, com menos elementos para lidar. Mas a pergunta continua ressoando...

A insistência no tratamento apesar de tudo leva a descoberta que existe uma vida mais feliz, que a vida pode deixar de ser o inferno que se tornou. A comida para de ser o centro de tudo, o mundo começa a se mostrar mais interessante, e mais real. 
Mas também leva a dura percepção que não existe cura. A voz do TA, as lembranças das práticas passadas, e as vezes vontade de voltar atrás podem (e vão) estar lá... o que muda é a intensidade, que torna-se tão pequena, que pode passar despercebida pelo resto da sua vida.

A falta de tempo, a competição em ambientes de estudo e trabalho, a velocidade das coisas, a fluidez das relações interpessoais, a rapidez com a qual as coisas vem e vão, a exigência da perfeição...um mundo tão seco e truculento.

O fim de ano é uma época desafiadora.
Fim de semestre, provas, vestibulares, trabalhos, festas, viagens, praia, piscina, reuniões em família, comida, bebida, comida e comida... Não é fácil. Mas é possível.
Se você, está passando por um momento difícil saiba que você não está sozinho.

A comida não tem como único objetivo nos nutrir. Ela possui um papel social importante em nossas vidas e aprender a ouvir o que o corpo pede e satisfaze-lo, é importantíssimo.

Apender a se amar é essencial e pedir ajuda, por mais difícil que seja, é necessário.

PS. Esse é um dos melhores vídeos que já vi sobre esse assunto. Vale a pena:

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