quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

"Sejam livres!" ...

Num discurso político durante a aula de história, entramos em uma polêmica discussão que vai bem mais longe do que chegamos. 
A discussão sobre uma reforma eleitoral aqui na Itália. 
O primeiro ponto foi colocado por uma companheira de classe que defendeu uma visão liberal do assunto. 
A reforma, em sua visão, deve ser feita na forma de um "filtro" entre aqueles que votam. Só permitindo realizar tal ação quem "realmente sabe o que está fazendo"; pessoas que "entendam sobre política" e que tenham vontade genuína de votar, ao contrário da situação atual, na qual uma massa de pessoas "que não entende nada sobre o assunto" vota por obrigação, elegendo um candidato qualquer. 
A reforma sugerida poderia ser de duas formas diferentes. Uma consistiria no voto passar a ser pago e não obrigatório. 
Seguindo sua lógica, se houvesse custo para votar, os participantes das eleições acabariam sendo aqueles de real vontade de fazê-lo. Já a segunda, consistiria na realização de uma prova sobre política e/ou conhecimentos gerais que determinaria os indivíduos “devidamente” informados sobre o assunto e, desta forma, os aptos a votarem.

Rebati suas propostas não com outra, mas com a decomposição de sua própria fala, para mostrar de maneira clara o que havia dito.
A reforma eleitoral, se for baseada em custos, não será apenas uma seleção entre quem quer e quem não quer votar, mas também há de se apresentar como um funil social, o qual divide a população em quem pode e em quem não pode pagar; E isso implica em apenas uma parcela da população eleger seus representantes, enquanto a outra parcela fica sem voz nenhuma. Fato um tanto quanto contraditório em relação à atividade do voto. Com esse discurso do custo, também subentende-se que quem paga é mais apto a votar, colocando a parte da população que não tem condições financeiras em um lugar de ignorância, o que aumentaria o estereótipo, a marginalização e o abismo social já existente.
Sua segunda sugestão (a "prova" sobre politica) teria o mesmo efeito do que colocar um custo para votar: Um outro funil social. Aqueles que não tiveram uma boa educação, que não tem internet, livros e não podem pagar por isso, não conseguiriam passar nesse exame, e ficariam de fora da eleição de seus futuros representantes. 

Os liberais partem do ponto em que o mundo está e dizem: "Sejam livres! Livre comércio, sem intervenção do estado! Livre concorrência!" Mas quem realmente pode seguir essa "ordem" é quem já possuía uma certa qualidade de vida anteriormente (os donos das fabricas, empresários, médicos, engenheiros). E os analfabetos? E a parte da população que vive com uma salario de 600 reais o mês ou menos? (agora falando do Brasil) Que liberdade eles terão? 
É aquele discurso contra as cotas: "todos temos os mesmos direitos e oportunidades agora que acabou a escravidão". Mas não é bem assim.
Depois de seculos subjugando uma etnia inteira, tolhendo todos seus direitos e dignidades, gritamos: "Aê galera, ta todo mundo livre!"
E que liberdade é essa?
Liberdade para mim: Branca, de classe media, estudando em uma boa escola privada...
Não é a liberdade que o bisneto de um escravo conhece... Pois na maioria das vezes, seu bisavô saiu da senzala e foi pra favela, sua mãe trabalhou como empregada domestica, e ele estuda em uma escola pública que mal tem cadeiras.
E nos temos as mesmas oportunidades?!

Fica aqui a reflexão...



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