Pretendendo que aquele fosse meu último suspiro, calei-me. Procurara um refúgio em minha mente fechando os olhos e ouvia os desafinados ruídos da cidade. O cheiro de esgoto dominara todo ambiente. O vento, com intenção de me acariciar, me enojava.
Era como se o mundo fosse um fruto, apodrecido devido aos vermes que nele viviam.
Aquele grito contido na garganta... Aquele choro reprimido... todas as cores desbotadas.. Aquilo era a cidade? Um lugar cinza, malicioso... sem esperanças.
Mas eu, finalmente, me libertara. Então... Apaguei.
Quantos comprimidos foram não consigo me lembrar. Acordei com o toque de mãos emborrachadas em meu corpo naquele momento, insensível e amortecido. Tentara inutilmente abrir os olhos. Mais uma vez, fiquei inconsciente.
Dessa vez abrir os olhos não fora uma árdua tarefa. O cômodo absurdamente calmo e branco provocou-me um calafrio, cortinas angelicalmente dispostas sob a janela... aonde estava?! Não demorou muito para eu perceber que não estava sozinha: Minhas mãos, aquecidas com o calor de outras... E naquele assustador quarto de hospital, encontrei todo acolhimento que sempre procurara.
Em cada canto do quarto, uma cadeira com uma delas. A janela exibia o luar iluminando e agora, também, embelezando todo ambiente. Minhas amigas... Minhas irmãs... O meu grupo.
Tudo agora mudaria.
As luzes da cidade gritavam por mim.
Achei a já perdida esperança. Um doce perfume entrou carregado pelo vento , despertando em meu corpo, a vida.
Texto: Lívia Jorge

Nenhum comentário:
Postar um comentário